

Até poucos anos atrás, falar em saúde mental no ambiente de
trabalho ainda soava como algo periférico, quase acessório. Era um tema
lembrado em campanhas pontuais, geralmente restritas a datas simbólicas,
enquanto o dia a dia seguia marcado por metas agressivas, jornadas extensas,
lideranças despreparadas e uma naturalização do cansaço extremo. Hoje, esse
cenário já não se sustenta. O Brasil vive uma crise silenciosa, mas profunda,
de adoecimento psíquico relacionado ao trabalho, e os números recentes deixam
isso evidente.
Em 2024, mais de 470 mil trabalhadores foram afastados por
transtornos mentais, como ansiedade, depressão e síndrome de burnout. É o maior
número já registrado. Esses dados não refletem apenas um aumento de
diagnósticos ou maior conscientização médica. Eles revelam, sobretudo, que o
modo como o trabalho vem sendo organizado em muitos setores tem ultrapassado
limites humanos básicos. O trabalho, que deveria ser fonte de realização,
pertencimento e autonomia, passou a ser, para muitos, um fator de sofrimento constante.
É nesse contexto que 2026 desponta como um ano-chave. Não
porque todos os problemas estarão resolvidos até lá, mas porque estamos diante
de um processo de virada cultural, jurídica e organizacional que tende a
amadurecer nos próximos anos. A saúde mental deixou definitivamente de ser um
tema individual, restrito à capacidade de “resiliência” do trabalhador, e
passou a ser compreendida como uma responsabilidade coletiva, diretamente
ligada à forma como empresas são geridas.
Do ponto de vista empresarial, já se observa um movimento
claro de mudança. Nos últimos anos, muitas organizações passaram a investir em
programas de apoio psicológico, parcerias com plataformas de terapia, canais de
escuta e ações de bem-estar. Para 2026, a expectativa é de maior sofisticação
dessas iniciativas. O cuidado com a saúde mental tende a deixar de ser
episódico ou meramente simbólico e passar a integrar a estratégia do negócio,
com diagnósticos mais estruturados, acompanhamento contínuo e indicadores
claros. Isso se conecta diretamente à agenda ESG, na qual o pilar social —
especialmente o cuidado com pessoas — ganha relevância crescente para
investidores, consumidores e talentos.
Esse avanço, no entanto, não ocorre apenas por uma mudança
de mentalidade espontânea. Ele é impulsionado também por transformações
relevantes no campo regulatório. A atualização da Norma Regulamentadora nº 1
(NR-1) representa um marco importante ao exigir que as empresas incluam, de
forma expressa, os riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos.
Estresse crônico, assédio moral, sobrecarga emocional e modelos de gestão
excessivamente pressionadores passam a ser reconhecidos formalmente como riscos
ocupacionais, ao lado dos riscos físicos, químicos e ergonômicos.
É importante esclarecer, contudo, um ponto que tem gerado
dúvidas no mercado: embora essa exigência já esteja prevista na norma, o
próprio Ministério do Trabalho estabeleceu um período de transição com caráter
educativo. Até 25 de maio de 2026, a fiscalização será predominantemente
orientativa, voltada à adaptação das empresas, à disseminação de boas práticas
e à consolidação de critérios técnicos. Somente a partir de 26 de maio de 2026
é que o descumprimento da NR-1, no que se refere aos riscos psicossociais,
poderá gerar autuações e multas. Esse intervalo não deve ser visto como um
adiamento confortável, mas como uma janela estratégica para que as empresas se
organizem, revisem seus modelos de gestão e construam soluções consistentes,
evitando respostas improvisadas ou meramente defensivas.
Além da NR-1, outro sinal relevante desse novo momento é a
criação do Certificado Empresa Promotora da Saúde Mental, instituído pela Lei
nº 14.831/2024. Embora voluntário, esse selo tende a ganhar valor simbólico e
reputacional, funcionando como um indicador de maturidade organizacional.
Empresas que adotam práticas reais de cuidado, combate ao assédio, promoção do
equilíbrio entre vida pessoal e profissional e apoio emocional passam a se
diferenciar em um mercado cada vez mais atento à coerência entre discurso e
prática.
Paralelamente às mudanças normativas, há uma transformação
cultural profunda em curso. A pandemia acelerou questionamentos sobre sentido,
limites e prioridades. Muitos profissionais passaram a repensar sua relação com
o trabalho, e as novas gerações que ingressam no mercado já não aceitam, com a
mesma tolerância de antes, ambientes tóxicos, lideranças autoritárias ou
jornadas que inviabilizam a vida pessoal. Para esses profissionais, salário e
status não compensam um cotidiano marcado por ansiedade constante e desgaste
emocional. Essa mudança de expectativa tem forçado empresas a revisarem suas
práticas se quiserem atrair e reter talentos.
Nesse cenário, o papel da liderança se torna absolutamente
central. O gestor de 2026 não será apenas aquele que entrega resultados, mas
aquele que sabe como esses resultados são alcançados. A forma de cobrança, o
nível de escuta, a capacidade de reconhecer limites e de construir relações de
confiança passam a ser fatores determinantes para a saúde emocional das
equipes. Cada vez mais, fica claro que ambientes adoecidos não são fruto de
indivíduos frágeis, mas de sistemas mal desenhados e lideranças despreparadas.
Por isso, cresce a demanda por formação emocional de líderes, por modelos de
gestão mais humanos e por culturas organizacionais que valorizem segurança
psicológica.
A tecnologia também ocupa um papel ambíguo nesse debate. O
trabalho remoto e híbrido trouxe ganhos inegáveis de flexibilidade e autonomia,
mas também intensificou a hiperconexão, a sensação de disponibilidade
permanente e a dificuldade de desligamento. Para 2026, tende a ganhar força o
debate sobre o direito à desconexão, com políticas mais claras sobre horários,
uso consciente de ferramentas digitais e respeito efetivo ao tempo de descanso.
Ao mesmo tempo, surgem soluções tecnológicas voltadas ao cuidado, como
plataformas de apoio emocional, aplicativos de bem-estar e ferramentas de
análise de riscos psicossociais. O desafio será garantir que essas tecnologias
sejam usadas para proteger, e não para vigiar.
Talvez a principal mudança que se desenha até 2026 seja a
superação definitiva da lógica que individualiza o sofrimento. A ideia de que o
trabalhador adoece porque não soube “dar conta” perde força diante da
constatação de que o contexto importa — e muito. Carga de trabalho, estilo de
liderança, previsibilidade, reconhecimento e autonomia são elementos que
influenciam diretamente a saúde mental. Ignorá-los não é apenas injusto; é
ineficiente e, cada vez mais, juridicamente arriscado.
O que se espera, portanto, para 2026 é um ambiente de
trabalho em transição. Ainda marcado por tensões, resistências e aprendizados,
mas também por maior consciência, responsabilidade e maturidade. Empresas que
utilizarem o período atual apenas para cumprir formalidades provavelmente
enfrentarão problemas no futuro. Já aquelas que enxergarem esse movimento como
uma oportunidade de repensar sua cultura, suas práticas e sua relação com as
pessoas estarão mais preparadas para um mundo do trabalho que exige não apenas
desempenho, mas humanidade.
No fim, a mensagem é simples, embora desafiadora: não existe
produtividade sustentável sem saúde mental. Não existe inovação sem segurança
emocional. E não existe futuro do trabalho que não coloque as pessoas — de
verdade — no centro da conversa.